Aos meninos que ficam sempre dentro de cada um de nós...
os que conhecemos...
os que fomos...
e aqueles que ainda somos!

A Esperança
Era uma vez um menino que vivia no tronco de uma árvore. Todos os dias ele subia ao ramo mais próximo, que era já só um coto, onde se instalava confortavelmente a olhar os seus irmãos passarinhos em seus acrobáticos voos.






Um dia também ele haveria de voar! Era essa a sua esperança. Só que ainda não lhe tinham nascido as asas, tal como aos seus irmãos passarinhos. Mas haveriam de nascer! Certamente, haveriam de nascer!



Ele sabia que era diferente, mas todos os seus irmãos, embora já tivessem nascido com asas, só mais tarde é que aprendiam a voar. Por isso, a sua esperança era que um dia os seus braços dessem lugar a duas enormes asas que o levassem aos cumes, de onde pudesse colher as suas próprias aventuras e alimentos.
Ele tinha essa esperança...
Dona Riça
Dona Riça, a gordalhufa de andar apatalhado, sempre atafulhada de bugigangas e de outras coisas imprestáveis, andava frustrada de há uns tempos para lá por causa da pouca importância que as outras suas congéneres lhe pareciam querer dar. Aquilo era uma desconsideração que não conseguiria suportar por mais tempo, ai isso é que não!

Farta de carnes e de plumas a cobrirem a redondez do corpo balofo, cuidava mais em devorar o que lhe aparecesse à frente, como se o universo inteiro estivesse prestes a findar a qualquer instante, do que com a imagem que de si mesma o espelho de água lhe mostrava, disforme, dia para dia, envolvendo e transbordando como vaga tsunâmica o próprio lago onde mirava todo o seu desengano, toda a sua vaidade descabida e ferida.


Convencera-se, há muito, que a água deforma a imagem das pessoas e que, mesmo assim, atenuaria o volumoso fardo em que a gula a transformara com os pechisbeques, as grossas roupas e as exageradas pinturas que usava.


O resultado, está-se mesmo a ver, era mais de mais, como se um borrão por cima de outro pudesse deixar de ser mais um borrão… mas isso ela não via, não queria ver! Estava para lá desses considerandos! Tinha-se em muito alta estima! O importante era sentir-se o centro do mundo! E era-o, realmente – um ponto visível de qualquer lugar do universo.


Mas as coisas não corriam da melhor forma para D. Riça, desde que adquirira aquele porte, aquela atitude autista de ir e vir com a cabeça ao prato, esquecida do mundo… de si própria! As amigas falavam à boca fechada pelos desencantos e isso a entristecia…



#<"%*«
... os rapagões da aldeia, os mais viçosos, já não eram promessas para ela, apenas brilho de sol que não se alcança, e isso a desaustinava, ainda estava para as curvas, pensava…




Ora, foi perante este estado de almas que ela decidiu agitar as águas em seu favor. Começou, então, a criar casos que dessem azo a tornar-se vista, ou melhor, revista, na imprensa cor de rosa choque. Chocava falsos ovos, é o que se pode dizer, ao chocalhar os pechisbeques ostensivamente perante tudo o que desse ares de estar vivo e mexesse. Cínica, despudorada, alarmava a pacatez da vizinhança.







Uma vez, em ano de seca, quando toda a gente se debatia contra a escassez de comida fresca, lá surgia ela, badalenta, de bico recheado de verde azeitona, a fazer inveja aos papos vazios. Famosa por ter a mais o que, de facto, possuía, qual casca de ovo luzidia mas vazia, o mais que conseguia era gerar uma correria desenfreada, a toque de asas e penas perdidas dos mais sequiosos saltimbancos, delinquentes, que a todo o esforço tentavam arrebatar-lhe do bico tão ambicionado troféu.















Era o gozo total para D. Riça, nesse momento. Da margem oposta do rio os magotes de galináceos escanzelados aproximando-se cada vez mais, a cada pilar da ponte que atravessavam, ao encontro dela.








Nesse instante, simplesmente provocadora, com tanto rio onde cair morta, simulava um descuido, um desequilíbrio, e o verde caco de garrafa soltava-se do seu bico para mergulhar nas profundezas da água.


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